sábado, 23 de novembro de 2013

Amigo Articulista.




ARTICULISTAS
João Eurípedes Sabino - 22/11/2013
Atrás de uma bola...

“ATRÁS DE UMA BOLA, VEM SEMPRE UMA CRIANÇA.” Alguém disse esta frase e nunca nos esquecemos dela quando o quadro acontece.

Belo entardecer de um domingo; sigo de carro numa avenida em velocidade compatível com filas de veículos indo e vindo. De repente sou obrigado a parar na própria faixa de tráfego. O único sinal que pude acionar foram as luzes de freio do meu veículo. Atendi ao Art. 42 do Código de Trânsito Brasileiro.

Olhando no retrovisor, constatei que atrás vinha um belo e suntuoso importado. Ao me ver parado, o seu condutor entra pela direita, para bruscamente e solta um brado, para não dizer “berro”: - Ô CARA, VOCÊ FICOU LOUCO? “CÊ” ME PARA NUM LUGAR DESSE! QUER MORRER?

- Não, amigo - lhe respondi. É que à nossa frente cruzou uma bola e atrás dela vem correndo uma criança, você viu?

Silêncio sepulcral...

Com os filhos dentro do carro e a esposa ao lado, aquele motorista apoiou os cotovelos no volante, baixou a cabeça e expressou-me o mais triste olhar. Ficou mudo e me reconheceu. Não precisou dizer nada. Captei o seu pedido de perdão mesclado com o arrependimento e a decepção consigo mesmo, já que somos amigos há quatro décadas.

Tudo ocorreu em fração de minuto.

Os pais do menino, atônitos, retiraram-no ileso da pista junto com a sua bola. Voltei-me ao amigo: - Tá desculpado, doutor (........), e parti.

Até agora estou inculcado. Aquele belo utilitário japonês continuou estático na pista, enquanto pude vê-lo pelo retrovisor. Será que o condutor, um respeitável profissional liberal, fora pego de surpresa? A família lhe fez alguma cobrança?

De uma coisa eu tenho absoluta certeza; os pensamentos - deficiências psicológicas - que o incitaram a agir daquela forma, no momento exato, fugiram, deixando-o “falando sozinho”. Tiraram-lhe o argumento, já que os fatos falaram mais alto. Trânsito é isso, mas não deveria ser.

Eu, apesar de estar num carro nacional, saí dali em absoluta paz, pois mereci um momento de ímpar grandeza. Experimentei a felicidade por ter evitado talvez a morte de uma criança.

 

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